quarta-feira, 24 de julho de 2013

O que eu gostaria de ter escrito.


Trinta e três. Quem diria. A adolescência foi na última quinta, ainda há resquícios dela na estante de CDs, no seu vocabulário, num canto do armário – uma camisa xadrez que não vê a luz do sol desde um show do Faith no More, em 1997 -, mas são resquícios. Vez ou outra você está no supermercado, comprando saco de lixo, queijo minas light e amaciante e vê uma turma de garotos e garotas carregando garrafas de Smirnoff Ice e sacolas de Doritos. Você olha para as franjas lambidas dos meninos, para os piercings das meninas e percebe, meio assustado, que aquele é um mundo distante. Sente alguma vergonha do seu carrinho.

Diga, trinta e três: trinta e três. Diga: o que você fez? A essa altura da estrada, uma parada é inevitável. Você desce do carro, contempla a vista do mirante. Não é um olhar para trás, como devem fazer os velhos, ao fim da vida – ou devem evitar fazê-lo, dependendo -, mas um olhar em volta: isso aqui sou eu. Daqui pra frente, não vai mudar muito, vai? Já deu tempo de descobrir que você não é um gênio da matemática, nem um fenômeno da ginástica olímpica.

Trinta e três anos. A idade de Cristo, alguém diz, e você logo pensa, repetindo um dos cacoetes de sua faixa etária: o que ele já tinha alcançado, com a minha idade? Bom, tinha transformado água em vinho, multiplicado peixes e pães, andado sobre as águas, levantado defuntos e conquistado uma multidão de fiéis em toda Judéia, Galiléia, Samaria, Efraim e arredores. E você, que não tem nem casa própria? Bom, também, naquele tempo era mais fácil – você tenta se consolar -, não tinha tanta concorrência e, oras, o cara era filho de Deus, o que não só abre portas, abre até o mar vermelho! Mas você se compara, mesmo assim: Jesus deve ter andado sobre as águas com o que? Dezessete? Orson Welles fez Cidadão Kane com vinte e cinco. Rimbaud escreveu toda a obra até os dezenove! E você tão feliz por ter conseguido mais quinze seguidores no Twitter.

(O lance do Mar Vermelho… Foi com Jesus ou com Moisés? Céus, trinta e três anos e você não sabe uma coisa dessas? Será que um dia vai saber? Quando tem treze, ou vinte e três, acha que uma hora vai aprender tudo o que não sabe, basta ficar parado que as coisas naturalmente virão e entrarão na sua cabeça. Agora você percebe que talvez passe a vida ignorando certos assuntos. Mar Vermelho. As regras do gamão. Francês.)

Pense: um homem. Pense: uma mulher. Adultos, no sentido mais abstrato, como um casal num livro de inglês ou num vídeo de normas de segurança do DETRAN. Espécimes maduros do homo sapiens sapiens: eles devem ter a sua idade. Talvez tenham filhos. Você tem filhos, ou ainda não? Repare no “ainda não”, pois de todas as coisas que você não conquistou até agora, há que saber discernir entre as que podem vir acompanhadas por um “ainda não” e aquelas das quais é melhor desistir. Andar sobre as águas, gênio da matemática, fenômeno da ginástica olímpica: não é pra todo mundo. E aos trinta e três anos, meu chapa, é a hora de admitir: você é todo mundo. Sei que é difícil. Viu filmes da Sessão da Tarde demais, propagandas da Nike demais, foi mimado demais para admitir que Deus não passou mais tempo moldando a sua fôrma do que a do vizinho do 71. É a não compreensão desse banal infortúnio que faz com que haja em tantos rostos de sua idade um brilho opaco, um fungo que brota onde o sol não bate forte o suficiente: o ressentimento.

Acredite em mim: aos trinta e três anos, de Jesus pra baixo, todo mundo é ressentido. Não é que as pessoas vivam vidas ruins, as aspirações é que são muito altas. A Sessão da Tarde, as propagandas da Nike… Seu emprego é bom, mas o salário é ruim. O salário é bom, mas o chefe é mala. O chefe é você, mas os prazos não te dão sossego. Sempre tem um cunhado que ganha mais, um vizinho cuja grama é mais verde, o próximo cuja mulher é mais fornida; Jesus, aos trinta e três, o Orson Welles, aos vinte e cinco – e o mau exemplo do Rimbaud eu nem comento.

Trinta e três anos. Você para. Desce do carro. Olha em volta. Você é o que queria ser quando crescesse? Não exatamente? Por que não? Será que dá pra mudar? Quanto dá pra mudar?

É preciso achar lugar no peito para as frustrações. É preciso lidar com o ressentimento e não deixar, em hipótese alguma, que ele se transforme em cinismo – se ressentimento é fungo, cinismo é ferrugem. Agora volte para o carro e siga em frente. Se tudo der certo, você não está nem na metade do caminho.

Diga, trinta e três: trinta e três. Quem diria.

- Antônio Prata

terça-feira, 9 de julho de 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Previously on Facebook.


Manifestantes que furam filas, dão "jeitinhos" e são corruptos em suas esferas, ignorando, hipocritamente, que o que se vê no Congresso é reflexo de sua essência, não me representam. Alguns querem "hospitais e escolas no padrão FIFA". Eu quero brasileiros.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Asas do Desejo.


"When the child was a child, it was the time of these questions. Why am I me, and why not you? Why am I here, and why not there? When did time begin, and where does space end? Isn't life under the sun just a dream? Isn't what I see, hear, and smell just the mirage of a world before the world? Does evil actually exist, and are there people who are really evil? How can it be that I, who am I, wasn't before I was, and that sometime I, the one I am, no longer will be the one I am?"

Dois anos atrás, duas pessoas me disseram que Asas do Desejo era a minha cara. Nem me dei ao trabalho de anotar aquela sugestão, uma vez que se tratava de duas pessoas que mal me conheciam e, na qualidade de semi-conhecidos, como poderiam saber o que era ou não a minha cara?

Meses depois anunciaram uma exposição de filmes do Wim Wenders aqui em São Paulo e uma dessas pessoas insistiu muito para que eu fosse. Primeiro, assisti a Paris, Texas. Excelente. Depois, deixei o queixo cair vendo Asas. Deus do céu, como aqueles zé-ninguéns poderiam saber tanto de mim? Como poderiam, com duas ou três cervejas, com duas ou três saídas, me resolver desse jeito?

Não sei. Só sei que transparente eu não sou. Uma dessas pessoas se tornou uma de minhas melhores amigas da vida e depois de alcançar esse posto - quando então ganhou total legitimidade para afirmar o que era ou não de meu gosto - nunca mais deu uma dentro. 

sábado, 1 de junho de 2013

Bridge, filmes e outras drogas.

Há oito dias estou "trancafiada" em um resort no litoral do Rio de Janeiro, acompanhando meu namorado, que é jogador de bridge e integra a equipe brasileira. Os dias aqui têm sido bem agradáveis, embora eu não me encontre em lua-de-mel, visto que meu namorado joga a maior parte do tempo. De qualquer modo, dá para aproveitar o sol, quando ele aparece acompanhado de uma brisa gelada, estudar e ver filmes. Muitos filmes. Por sorte, a TV fechada está com uma programação boa, reproduzindo em série filmes baseados em histórias reais (sim, o tempo passa, o tempo voa e eu continuo mantendo um caso de amor com a verossimilhança e a poesia da vida real). Resultado disso: soluços e olhos inchados, que nem a maquiagem mais potente é capaz de disfarçar. 

O agravante do chororô todo ficou a cargo dos personagens principais de tais filmes: animais. Não, eu não me tornei "verdista", não levanto bandeira alguma, muito menos compartilho fotos nas redes sociais, pedindo que outros façam aquilo que eu não consigo fazer. Mas eu nutro um amor pelos animais, que talvez seja maior do que o que sinto pelas pessoas. Sinto culpa por isso às vezes, até porque nem a Natureza é tão fraternal com os seus como eu. Aliás, com suas leis implacáveis e suas sentenças irrecorríveis, ela chega a ser mais escrota que o mais cruel dos seres humanos. Paciência. Sou o que sou e a choradeira vai continuar. Quem quiser me acompanhar nesse vale de lágrimas, é só esperar o repeteco dos seguintes filmes:

  1. Seabiscuit - Alma de Herói ("Seabiscuit", 2003): esse é o campeão. Embora eu não aprecie o turfe, como não morrer de chorar com um cavalo e um jóquei desacreditados que vencem suas limitações e superam todas as expectativas, mais de uma vez?
  2. Sempre ao Seu Lado ("Hachi - A Dog's Tale", 2009): minha mãe já havia me alertado sobre uma possível desidratação, caso resolvesse assistir a esse filme. Sempre mudei de canal, mas ontem fui até o fim. Achei que, de um modo geral, o filme parece com meus textos - preguiçosos e cheios de lacunas entre parágrafos que não se interligam, por pura preguiça. Acho que o diretor poderia ter se utilizado de mais detalhes para tornar a peça única e não focar apenas em um aspecto da relação dono-cão. Mas não tem jeito, por mais tosco que seja o filme, se tiver um cãozinho no meio, é certo que vou soluçar de chorar.
  3. O Grande Milagre ("Big Miracle", 2012): agora, sim, meu pai morre de vergonha. O filme mais ambientalista de todos, com direito a atuação ferrenha do Greenpeace e tudo o mais, me fez chorar mais por me fazer enxergar que coisas boas podem acontecer, mesmo quando várias forças divergentes atuam na defesa, única e exclusiva, de seus interesses; e
  4. Compramos um Zoológico ("We Bought a Zoo", 2011): aqui, o chororô se deu mais por minha sensibilidade exagerada. No entanto, se não sentiu um aperto no peito com aquele tigre-de-bengala, sinto lhe informar que você não tem coração.

That's all for today, folks!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A moda, alguns vestidos e eu.

Minha relação com a moda não é, nem nunca foi, estável. Quando criança, era obrigada a usar as criações de minha mãe, que, àquela época, criava roupas para executivas, me usando como seu ratinho de laboratório. Obviamente eu não andava de terno ou tailleur aos cinco anos de idade, mas da mesma forma que a gente reconhece um escritor pelo jeito com o qual ele escreve, era nítido que aquelas roupas nada infantis que eu vestia tinham sido feitas por ela.

Quando ganhei autonomia para vestir o que quisesse, não tinha corpo, nem ousadia para usar e me sentir bem com o que era considerado cool. Fato é que hoje, com esse boom dos blogs de moda, tenho acesso fácil a todo tipo de informação sobre o que devo ou não vestir em determinadas ocasiões, sobre quais cores favorecem meu tom de pele ou quais estampas acentuam minhas imperfeições, mas ainda sofro quando tenho que escolher algo, sem a ajuda da minha mãe - mesmo recusando quase todas as suas sugestões. O "caminho do meio" que encontrei foi optar quase sempre pelo vestido, por ser uma peça prática e bastante feminina. A depender dos acessórios, um mesmo vestido pode ser arrumado ou despojado, me fazendo sentir adequada em qualquer ambiente, sem perder muito tempo calculando se isso combina com aquilo ou com aquilo outro.

Foi então que dia desses minha cunhada me disse incisivamente: "[...] não é que você não se arrume bem, é que é visível a sua preguiça". Assim entendi que, a despeito de parecer desobrigada do papel de Barbie da mamãe, fazendo as minhas próprias e reiteradas escolhas, os vestidos não representavam minha libertação, mas, sim, a minha negligência quanto a me fazer crescer e aparecer.

Fasten your seat belt.


A sensação de entrar num avião é, para mim, uma das melhores da vida. Acho que ela só perde para a que o cheiro de café provoca. Eu sei que hoje entrar em um avião implica em espera, filas, aperto, gritos, choros e pessoas desagradáveis a 2 cm da gente, mas, ainda assim, é uma delícia. Entrar no avião é quase como esperar pela abertura da Porta da Esperança. Quando você entra e senta, é logo acompanhado pela ansiedade do que está por vir, alimentando pensamentos como: "ok, vamos rápido porque não aguento mais de saudade de casa", ou "ufa, não quero saber de pepino pelos próximos 15 dias", ou ainda "eita coisa boa, só uma reunião na sede do cliente para me tirar daquele escritório". 

Pensei nisso hoje porque vi uma foto aleatória na web que me fez sentir exatamente o que sentia quando, ainda pequenininha, era despachada para passar o verão com as primas em Maceió, ou o que sinto agora quando preciso visitar a família, ficar com namorado, matar a saudade do meu cachorro, fugir de casa ou nela me refugiar.

E para o voo se aproximar do que considero agradável, basta que no serviço de bordo ofereçam um sanduíche de pão de leite, porque, convenhamos, pão de leite é golpe baixo.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

In dreams.


Após uma seqüência de dias bons e noites bem dormidas, hoje revirei a noite toda. Ora o barulho do quarto de cima, ora o ronco do meu próprio quarto me faziam despertar. Ainda assim, nessas oito horas revoltas, tive um sonho nítido e perturbador. Na época da escola isso acontecia com alguma frequência: passava a tarde me debatendo na resolução de um exercício, mas só descobria a resposta à noite, enquanto dormia. E foi o que me ocorreu hoje. Ao adormecer, fui levada a um passado de angústia e obtive a resposta para o sofrimento dele decorrente, apenas agora, por meio dessa outra dimensão. Ao acordar exausta, conclui apenas que o meu cérebro não tem o menor respeito pelo corpo que lhe abriga. Afinal, isso são modos de falar?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Fim.


Hora de seguir, pessoal. De meter a cara nos livros e focar no que realmente importa. Talvez a atividade que eu tenha escolhido não seja a mais aprazível, mas também não é das piores. E estudar é como dizem mesmo: quando a gente passa a entender e dominar a espinha dorsal da matéria, o estudo se torna até agradável.

Para fazer bem feito o que me propus a fazer, preciso ir. Preciso ir, porque, infelizmente, não vim a passeio. Preciso ir porque, felizmente, descobri que ser útil é o melhor antiácido que há. No fim das contas, já estava mesmo na hora de desembrulhar esse estômago, não estava? Sentirei saudades de tudo e de todos. Mas, para quem quiser manter ainda algum contato, meu Twitter continuará ativo(http://www.twitter.com/costavivz), afinal 140 caracteres não matam ninguém.

Por fim e por essas palavras mal colocadas, dou meu adeus. E, parto assim. Sem qualquer melodia.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Um começo.



Dia desses, assistindo a uma entrevista de Madonna, a vi dizer que, após anos sendo rejeitada em todos os testes que prestou para dançarina da Broadway, uns produtores franceses quiseram tranformá-la em estrela e, do dia pra noite, do apartamento pobre e cheio de baratas ao hotel mais chique de Paris com carro à espera e tudo, ela viu sua vida mudar num piscar de olhos. Então pensei: viu que isso acontece? Viu que coisas extraordinárias podem cair do céu e transformar a mesmice de nossas vidas em algo? Viu?

Cansada de esperar que o extraordinário batesse à minha porta e me tirasse da mesmice de me ser, resolvi fazer algo a respeito. Algo que me estimulasse, que me desse ânimo, que me motivasse a continuar buscando por superação: pintei meus cabelos de preto.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Júlia e seus amiguinhos.

Ontem à noite saí com 3 amigos: Cildo, Zito e Tim. Uma mulher e três homens numa mesa de bar podem dar margem a interpretações duvidosas, então me empetequei toda para não ser confundida com um travesti. Tocou Roy Orbison, mas não Pretty Woman. Ainda bem - alguém podia ver a personagem em mim. Aproveitei que estava de carona e tomei um chopp. Quem não podia beber, fumava.

- Você já tinha me visto fumando?
- Não e estou achando ridículo.

Zito fazia desenhos no guardanapo. Tim-Tim falava sobre Hitler, narcisismo e não sei mais o quê. Cildo trocava mensagens pelo celular e eu me concentrava na trilha sonora. Tomei outro chopp. Porra, de fuder esse bar!

Um encontro idealizado há 2 mil anos, mas logo ontem que eu estava caindo de sono.